Edulcorantes: Um Guia para Perceber a Doçura Sem Açúcar
O sabor doce, presente no açúcar e nos edulcorantes, está ligado ao prazer, ao conforto e, muitas vezes, a uma predisposição genética. No entanto, o consumo excessivo de açúcar tornou-se um dos principais temas de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta: doenças como a obesidade, a diabetes tipo 2 e as complicações cardiovasculares atingiram níveis alarmantes e o açúcar tem um papel determinante nesse cenário (WHO, 2015).
Os edulcorantes surgem como uma alternativa. Permitem manter o sabor doce, mas com menos calorias — ou mesmo sem nenhuma. Mas será que são seguros? E o que diz a ciência? Vamos descobrir.
Porque é que os edulcorantes estão a ganhar popularidade?
A resposta é clara: ajudam a reduzir o consumo de açúcar e, com isso, a ingestão calórica. A OMS recomenda que os açúcares não ultrapassem 10% das calorias diárias — sendo preferível manter o valor abaixo dos 5% (WHO, 2015). Os edulcorantes facilitam esse objetivo sem sacrificar o sabor.
Mas os benefícios vão além disso:
- Importante para pessoas com diabetes: Muitos edulcorantes, como os polióis (xilitol, maltitol), não exigem insulina para serem metabolizados. Por isso, quem vive com diabetes pode usá-los com segurança (Gardner et al., 2023).
- Aliados na saúde oral: Ao contrário do açúcar, a maioria dos edulcorantes não alimenta as bactérias que causam cáries. O xilitol, por exemplo, estimula a produção de saliva, o que protege os dentes (Mäkinen, 2010).
- Úteis na indústria alimentar: Além de adoçarem, os edulcorantes melhoram a textura de iogurtes, mantêm bolos húmidos e estabilizam sabores em bebidas. Sempre que vês “sem adição de açúcares” num chocolate, é provável que o maltitol esteja a cumprir o papel do açúcar.
Onde encontramos os edulcorantes?
Atualmente, os edulcorantes aparecem em muitos produtos:
- Bebidas “zero” ou “light”
- Iogurtes e gelados
- Gomas e rebuçados
- Chocolates e sobremesas “sem açúcar”
- Geleias
- Cereais de pequeno-almoço
- Conservas e alimentos processados
Todos os edulcorantes são iguais?
Não. Eles dividem-se em dois grandes grupos:
- Edulcorantes intensivos: São centenas ou milhares de vezes mais doces do que o açúcar. Usam-se em pequenas quantidades e, por isso, não têm calorias significativas. Exemplos: aspartame, sucralose, glicosídeos de esteviol (Stevia).
- Polióis (ou edulcorantes de volume): Têm sabor mais próximo do açúcar e fornecem algumas calorias, embora em menor quantidade. Também ajudam na textura dos alimentos. Exemplos: xilitol, sorbitol, maltitol.
Natural ou sintético: o que realmente interessa?
Muitos preferem os edulcorantes “naturais”, como a Stevia. No entanto, o que mais importa é a segurança. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) avalia cada composto com base em dados científicos, independentemente da origem (EFSA, 2022).
São seguros? O que diz a ciência?
Esta é uma das perguntas mais frequentes — e com razão. Felizmente, os edulcorantes estão entre os aditivos mais estudados no mundo.
Segurança comprovada
A EFSA realiza avaliações rigorosas antes de aprovar qualquer edulcorante. Define para cada um uma Ingestão Diária Aceitável (IDA), ou seja, a quantidade máxima que se pode consumir diariamente sem riscos (consultar tabela abaixo). Essas doses incluem margens de segurança muito amplas (EFSA, 2025).
| Edulcorante | IDA (mg/kg de peso corporal/dia) | Origem | Referência |
| Aspartame (E951) | 40 | Sintético | EFSA (2013). EFSA Journal, 11(12):3496. doi:10.2903/j.efsa.2013.3496 |
| Sucralose (E955) | 15 | Sintético | JECFA (1990). WHO Technical Report Series 806 |
| Acessulfame-K (E950) | 9 | Sintético | EFSA (2000). Scientific Committee on Food Opinion SCF/CS/ADD/SCF_OUT52 |
| Sacarina (E954) | 5 | Sintético | JECFA (1982); Confirmado por EFSA (2009) |
| Ciclamato (E952) | 7 | Sintético | JECFA (1983). WHO Food Additives Series 18 |
| Glicosídeos de Steviol | 4 | Natural | EFSA (2010). EFSA Journal, 8(4):1537. doi:10.2903/j.efsa.2010.1537 |
| Xilitol (E967) | Não especificado | Poliol | JECFA (1983). WHO Food Additives Series 18 |
| Sorbitol (E420) | Não especificado | Poliol | JECFA (1982); EFSA (2011) |
Pontos a considerar
Apesar da aprovação oficial, o debate científico continua. Alguns estudos recentes levantaram questões importantes:
- Peso corporal: Uma meta-análise no BMJ (Toews et al., 2019) concluiu que os edulcorantes não calóricos podem ter efeito neutro ou ligeiramente positivo na gestão do peso. Contudo, estudos observacionais relacionaram-nos com o aumento de peso. Como explicar isso?
- O cérebro espera energia: o sabor doce ativa os centros de recompensa, mas não recebe calorias reais (Yang, 2010).
- Mudanças na microbiota intestinal: certos edulcorantes, como a sucralose, alteram a flora intestinal (Suez et al., 2014; Thomson et al., 2020).
- Estímulos intestinais: sensores intestinais detetam o sabor doce e podem ativar hormonas que influenciam a glicose e o apetite (Brown et al., 2009).
Casos que geraram polémica
- Aspartame (E951): A EFSA reavaliou mais de 600 estudos em 2013 e manteve a aprovação para consumo, exceto em pessoas com fenilcetonúria1 (EFSA, 2013).
- Sacarina (E954): Nos anos 70, ligaram-na ao cancro da bexiga em ratos. Mais tarde, percebeu-se que o efeito era específico dessa espécie. Desde 2000, deixou de constar na lista de substâncias cancerígenas (NTP, 2000).
- Sucralose (E955): Alguns estudos recentes apontam alterações na microbiota intestinal e possíveis efeitos na insulina. No entanto, a comunidade científica ainda não chegou a um consenso (Thomson et al., 2020).
O que deves reter?
Reduzir o consumo de açúcar continua a ser uma prioridade para a saúde. Os edulcorantes, quando usados com consciência, são uma alternativa.
- São seguros: As autoridades aprovaram-nos com base em décadas de investigação.
- Usa com moderação: Substituir o açúcar não deve significar exagerar no doce.
- Informa-te pelos rótulos: Os edulcorantes aparecem listados, com nome ou código E.
- A ciência evolui: Continuam a surgir novos compostos — mais naturais, estáveis e eficazes. Até lá, faz escolhas equilibradas.
Referências:
WHO. Guideline: Sugars intake for adults and children. Geneva: World Health Organization; 2015.
EFSA Panel on Food Additives and Nutrient Sources added to Food (ANS). EFSA Journal 2013;11(12):3496.
Toews I. et al., “Association between intake of non-sugar sweeteners and health outcomes: systematic review and meta-analyses,” BMJ, 2019.
Suez J. et al., “Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota,” Nature, 2014.
Thomson P. et al., “Long-term impact of sucralose consumption on metabolic health,” Gut Microbes, 2020.
Gardner C. et al., “Nonnutritive sweeteners: Current use and health perspectives,” Diabetes Care, 2023.
Mäkinen KK. “Sugar alcohols, caries incidence, and remineralization of caries lesions,” Advances in Dental Research, 2010.
Yang Q., “Gain weight by “going on a diet?” Artificial sweeteners and the neurobiology of sugar cravings,” Yale J Biol Med, 2010.
Brown RJ et al., “Artificial sweeteners: a systematic review of metabolic effects in youth,” Int J Pediatr Obes, 2009.
NTP. National Toxicology Program. “Report on Carcinogens Background Document for Saccharin,” 2000.
EFSA Panel on Food Additives and Flavourings (FAF). (2022). Scientific guidance on the data required for the risk assessment of flavourings to be used in or on foods. European Food Safety Authority.
European Food Safety Authority. (2025, April 30). Sweeteners. EFSA. https://www.efsa.europa.eu/en/topics/topic/sweeteners
NHS. (n.d.). Phenylketonuria (PKU). NHS. https://www.nhs.uk/conditions/phenylketonuria/
- é um distúrbio do metabolismo de aminoácidos que ocorre em bebês que nascem sem a capacidade de decompor normalmente um aminoácido denominado fenilalanina (NHS, n.d.). ↩︎
Este artigo foi desenvolvido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, com revisão e curadoria humana.